Chile: A Casa dos Espíritos

Resenha nº 10: A Casa dos Espíritos – Isabel Allende

Ler A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, foi como desenterrar um tesouro. Acredito que não exista maneira melhor de definir minha experiência e por isso estava ansiosa para resenhar a obra.

Este é o primeiro livro do desafio escrito por uma mulher, o que me fez decidir entre ela e Pablo Neruda, ganhador do prêmio Nobel e escritor chileno famosíssimo que ficará para uma leitura futura.

Esta novela começa no início do século XX, poucos anos antes da Primeira Grande Guerra, com a numerosa e rica família Del Valle. Na mansão, viviam o casal Del Valle, Nívea e Severo. Ele desejava se tornar um político liberal, ela era uma sufragista que lutava pelo direito ao voto feminino. Tiveram 15 filhos, criaram 11 e foram muito felizes juntos. Dos membros que conheceremos, todos tiveram inclinação pelas causas sociais, de diferentes maneiras e intensidade.

Os membros importantes desta grande família são o tio Marcos, irmão de Nívea, Rosa e Clara, a filha mais bela e a mais nova, com dons espirituais avançados que marcam a história. Rosa é de uma beleza desconcertante, não parece deste mundo, é descrita com o cabelo verde e poderia ser uma sereia ou outro ser marinho.

Clara demonstrou desde cedo ser uma criatura especial, Nívea o percebeu e por isso deixava-a crescer como lhe fosse conveniente, embora os 10 anos de silêncio da menina tivessem alarmado a família.

Em paralelo, conhecemos a família Trueba, sobrenome de prestígio, mas pobre, devido a um marido irresponsável que dilapidou a fortuna de Ester. Ela teve dois filhos, Férula e Esteban. O rapaz se apaixona por Rosa e pede-a em casamento, mas como é pobre, decide trabalhar nas minas e espera encontrar um filão de ouro que lhe fará rico. Quando finalmente o encontra, recebe a trágica notícia da morte da noiva, que o deixa de coração partido.

Para superar a perda, desiste do filão de ouro da mina e viaja para a propriedade abandonada da família, Las Três Marias, que transforma em uma fazenda próspera e se torna um latifundiário riquíssimo.

Em decorrência da morte da mãe, depois de 10 anos Esteban volta para a capital e realiza o último pedido da mulher: encontrar uma noiva e casar-se. Sua primeira ideia foi procurar uma noiva na casa dos Del Valle, onde Clara o esperava.

Ambos casam-se e enquanto Clara ainda é viva, a história tem um tom leve, sonhador.  À medida que os três filhos de Clara nascem e têm sua história, acompanhamos seus romances, intrigas e rancores. Nenhum dos filhos nasceu com a habilidade de Clara para se comunicar com os espíritos, mas cresceram em um ambiente onde eles sempre estiveram presentes e recebiam sempre muito convidados, o que tornava sua casa na capital muito alegre.

A primeira filha, Blanca, amou apenas um homem em toda a sua vida, com quem teve uma filha, Alba. Este homem era o filho do administrador de Las Três Marias, Pedro Tercero Garcia. Quando adolescente, foi expulso pelo patrão por propagar ideias comunistas. Ele tocava violão e compunha canções subversivas, que no futuro o tornariam famoso nas rádios.

Os gêmeos Jaime e Nicolau são muito diferentes um do outro. Nicolau é aficionado pelas habilidades da mãe e tenta desenvolvê-las, mas não obtém êxito. Por isso, procura várias religiões e modos não-convencionais de alcançá-las. Após uma viagem à Índia, volta quase nu e com vários métodos para meditação.

O modo de vida alternativo de Nicolau desencadeia a ira de seu pai, principalmente quando raspou o cabelo de Alba para iniciá-la em uma de suas doutrinas. A neta era preciosíssima para o velho senador Trueba. Depois de causar várias confusões, o senador enviou-o ao exterior para não lhe trazer mais vergonha.

Jaime, por outro lado, é dono de grande ternura e compaixão, apesar de tímido e taciturno para mantê-las escondidas e evitar se expor ao ridículo. No entanto, tal estado de espírito inspira-o a tornar-se médico para ajudar os pobres, ao que se dedica até o fim da vida.

Devido a essa inclinação, Jaime conheceu Pedro Tercero Garcia e outros líderes da esquerda que disputavam as eleições democráticas do país, a cada eleição mais próximos de conquistar a presidência. Inclusive, Jaime torna-se amigo do presidente, que embora não seja nomeado, trata-se de Salvador Allende, primo do pai de Isabel Allende, o que a colocou em perigo quando o regime democrático foi derrubado e a ditadura militar instalada. Ela fugiu com a família para a Venezuela.

Daí sabemos qual será o rumo da história.

Todos na mansão de Trueba adoravam Alba, única neta de Esteban e Clara. Sua avó morre quando a menina tem 7 anos, mas sempre mantém o contato e protege-a do mais além. Quando Alba cresce vai para a faculdade, pois a essa altura o seu avô conservador foi obrigado a aceitar que “algumas” mulheres não eram totalmente estúpidas, por isso acreditava no potencial da neta. O velho frustrou-se com o desejo da moça de estudar filosofia e música, mas continuou a amá-la incondicionalmente.

Na universidade, Alba conhece Miguel, um rapaz comunista que acredita na guerrilha como único método para a esquerda conquistar e manter o poder. Neste período, a propaganda comunista já estava bastante consolidada e após 1 ano de relacionamento, o partido da esquerda é democraticamente eleito para a presidência.

Obviamente, a direita conservadora não poderia aceitá-lo, recorrendo a métodos de sabotagem, como criar uma crise econômica. Não duvido que Isabel tenha modificado alguns fatos para favorecer a esquerda, já que sua visão política realmente pende para este lado, mas os fatos mais gerais batem com as informações obtidas na minha pesquisa.

Depois de alguns anos de luta pelos bastidores, a direita decide investir em um golpe militar para derrubar o presidente. Entretanto, o plano era que os militares não permanecessem mais do que alguns meses no poder.

A ditadura durou 17 anos, de 1973 a 1990. O congresso foi fechado e o Chile, que já estava fragilizado, entrou num banho de sangue onde a menor discordância era considerada traição ao governo. A paranoia era tão grande que muitos inocentes foram mortos no intuito de eliminarem os comunistas do país. A população sofreu muitas perdas, houve desemprego, o salário da classe média se desvalorizou.

Por outro lado, os ricos obtiveram crédito e importavam diversos produtos de luxo, ficaram ainda mais ricos com seus negócios. Os estrangeiros também lucraram muito, a cada dois pesos investidos retiravam 2 do país. Houve alguns murmúrios de que a pátria estava sendo entregue embrulhada em papel de presente aos gringos.

Esteban Trueba, antes um influente político da direita, chorava pela pátria e se arrependia. Sua neta tentava ajudar os perseguidos levando-os na surdina às embaixadas para conseguirem exílio, o que podia colocá-la em problemas. Mas o que a fez ser levada e torturada foi o seu romance interrompido com Miguel, que para protegê-la manteve-a na ignorância e  afastada da ação.

O torturador de Alba era neto de um bastardo de Trueba, que descontou todo o seu rancor na moça, mesmo sabendo que ela não tinha nenhuma informação para lhe dar. Alba desejava morrer logo.

Assim, quando tinha conseguido quase o seu propósito, apareceu a avó Clara, a quem tinha invocado tantas vezes para a ajudar a morrer, com o argumento de que a graça não era morrer, porque isso chegaria de qualquer modo, mas sim sobreviver, o que era um milagre.

Depois da visita da avó, decidiu escrever sobre os horrores da ditadura em um livro, que é o exemplar que conhecemos de A Casa dos Espíritos. Seu avô faz todos os esforços possíveis para resgatá-la, inclusive unindo-se a Miguel nesta missão. Quando a tem de volta, não se contém de alegria, abraça-a e demonstra todo o amor e juntos começam a escrever a  história.

Por essa razão, existem alguns trechos contados através do ponto de vista de Trueba. Os demais são contados por Alba, que investiga a história da família e os cadernos de sua avó, nos quais Clara anotava os acontecimentos que achava importante.

A Casa dos Espíritos tem o seu lado literário e o político. Isabel trouxe uma parte da história do Chile, e não há como negar que a ditadura chilena foi uma das mais sanguinárias da América Latina, muitos inocentes pagaram pela crueldade de Pinochet. Caso você se interesse pelo tema, neste link há uma entrevista da autora sobre isso.

Só agora eu percebi que não sabemos nada sobre o fim de Miguel, se Alba ainda o reencontrará. Eu gostaria de acreditar que sim, mas o caráter de Miguel o faria se sacrificar pela causa e Alba sofreria muito. Esse parece ser o seu destino.

Este é mais um livro sobre o passado sofrido e sangrento da América Latina. Allende escreveu esta obra com maestria, misturando elementos fantásticos à realidade, dando um toque mais leve à sua obra. Esta é uma história emocionante que deve ser lida e relida muitas vezes, recomendo fortemente a leitura! Para mais resenhas, curta a página do blog no Facebook.


Ficha Técnica:

Autor: Isabel Allende

Editora: Bertrand Brasil

Edição: 39

Ano: 2009

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Categorias:Livro completo, Países, Resenha, Romance

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8 respostas

  1. Parabéns… Continue assim

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