República Dominicana: A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao

Resenha nº 17: A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao – Junot Díaz

A resenha de hoje representa mais um lugar a ser acrescentado na lista para se fazer turismo: a República Dominicana. Embora não comente tanto sobre a paisagem, A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, escrito pelo dominicano naturalizado estadunidense Junot Díaz, foi muito aclamado pela crítica desde o seu lançamento em 2007, vencendo o Prêmio Pulitzer de Ficção em 2008.

Com a morte de Oscar decretada no título do livro, ler sobre o personagem obeso, nerd e 100% virgem (nem um selinho o moço ganhou) me fez pensar que esta seria uma história sobre suicídio, na mesma linha de Os 13 Porquês, já que a narrativa se dá – à primeira vista – pela reconstrução da vida do rapaz até sua morte. Esse é e não é o formato da narrativa ao mesmo tempo… É difícil explicar, mas Oscar é o ponto central para as demais narrativas, mas a história não é apenas sobre ele, e sim sobre sua família, com foco nos períodos de 1930 a 1961 (a ditadura de Trujillo) e da Diáspora, o êxodo de dominicanos para o mundo em busca de uma vida melhor. A família de Oscar procura refúgio nos Estados Unidos, assim como muitas – MUITAS – outras.

No início, conhecemos a realidade da família no país desenvolvido e tudo o que se refere à República Dominicana são histórias, realidades e pessoas repletas de violência, machismo e sexo. Às vezes esses elementos se misturam. Essa tríade parece descrever os valores do típico homem dominicano: pegador, violento e infiel. Esteriótipo do qual Oscar não chega nem perto. Oscar é um nerd inveterado que almeja tornar-se o Tolkien dominicano, de modo que a história é recheada de citações e referências à cultura nerd.

A família de Oscar, os De León, são compostos pela mãe, Belicia, e a irmã mais velha, Lola, nos Estados Unidos, e La Inca, a mulher que adotou Belicia após as tragédias que aconteceram quando era garota, que ainda vive na República Dominicana – além de alguns outros tios e primos menos importantes.

Como a língua oficial da República Dominicana é o espanhol, eu não sei se foi uma falha da minha edição em ebook, mas muitas expressões no texto não estavam traduzidas. Eu entendo que por vezes o autor faça isso de propósito quando a história se passa em dois locais com língua nativa distinta, mas as palavras não eram restritas aos diálogos e a presença de expressões locais deixavam algumas lacunas no texto, dificultando a compreensão em alguns trechos. Creio que o ideal seria criar algum tipo de glossário para consulta no final do livro, já que o narrador escreve suas próprias observações no rodapé no decorrer do texto – o que poderia gerar ainda mais confusão.

Aliás, o narrador foi outro objeto de confusão na história. Boa parte da narrativa é fragmentada, mostrando partes da vida de alguns personagens importantes do ponto de vista de uma terceira pessoa, que dá a entender que estava tentando reconstruir a vida de Oscar.

Bom, acontece que o personagem que está escrevendo o livro só aparece na metade da história (ou um pouco depois), então em boa parte do tempo é confuso saber do ponto de vista de quem aquela história está sendo analisada, principalmente porque esse autor expressa com frequência a sua opinião (por vezes eu pensava que eram observações do próprio Junot Díaz, não de um personagem). Assim, é difícil saber a quem atribuir certas características percebidas nos comentários, nos quais o desprezo pelos europeus é intenso e palavras de baixo calão são amplamente utilizadas.

Seja lá de onde viesse e como fosse chamado, comenta-se que a chegada dos europeus à Hispaniola desencadeou o fukú no mundo e, desde então, estamos todos na merda. Pode ser que Santo Domingo tenha sido o porto de entrada, o Quilômetro Zero da praga, mas agora, cientes ou não, somos todos sua cria.

Para Oscar, as desgraças de sua vida são fruto de um tipo de maldição conhecida popularmente por fukú, que atingiu sua família na geração de seu avô, durante a ditadura de Trujillo, conhecido como El Jefe. Não há palavras para descrever essa ditadura em sua totalidade, tamanho o terror provocado e a brutalidade do tirano. O sentimento de medo era tão forte, que associaram o próprio fukú ao homem.

O fukú não é coisa do passado, nem história fantasiosa, que já não assusta. No tempo dos meus pais, era real à beça, algo em que gente simples levava fé. As pessoas conheciam alguém que havia sido devorado por um fukú, assim como pessoas que trabalhavam no palácio. Ele pairava no ar, embora ninguém quisesse, como ocorria com os fatos mais relevantes da Ilha, falar sobre ele. Acontece que, naquela época, o fukú ia de vento em popa; contava até com uma espécie de mestre de cerimônias de rap, um sumo sacerdote de segunda: nosso ditador-eterno de então, Rafael Leónidas Trujillo Molina. Ninguém sabe ao certo se o sujeito era diretor ou representante, criador ou criatura da Maldição, mas está claro que se entendiam; como eram próximos aqueles dois!

Outra característica do autor (não sei se do fictício ou do verdadeiro) é usar palavras estrangeiras para expressar alguns sentimentos, como Schadenfreude (do alemão, alegria com a desgraça alheia) e baka (palavra japonesa para idiota, estúpido, burro).

Bom, no final das contas este não é um livro sobre suicídio. Eu não contei muito sobre a história em si porque eu não quis me aprofundar nas tragédias da família e alongar demais o texto, em vez disso, eu preferi comentar algumas impressões que tive sobre esta história de solidão, sofrimento e amor, muito crítica com o subdesenvolvimento da República Dominicana.

Além disso, passeamos pela história do país desde o início do século XX, conhecendo um pouco sobre a realidade do local. Mas sabe aquele livro que você achou muito bom e ruim ao mesmo tempo? Pois é. Esse tipo de antagonismo me perseguiu durante toda a escrita deste texto e as minhas reflexões sobre a história. Acredito que é um livro muito bom, mas com a escrita um pouco confusa, o que pode ser explicado pela tradução ou por eu ter lido rápido demais. Compartilhe as suas impressões nos comentários e me diga de quem é a culpa, afinal, da tradutora ou da leitora 😛

Lola jurou nunca mais voltar àquele país terrível. Numa das nossas últimas noites como novios, ela disse, Dez milhões de Trujillos, é tudo o que somos.


Ficha Técnica:

Autor: Junot Díaz

Editora: Record

Edição: 1

Ano: 2009

Adicione o livro no Skoob!



Categorias:Livro completo, Países, Resenha, Romance, Sem categoria

Tags:, , , , , , ,

4 respostas

  1. Que texto incrível! Encantada com sua palavras, estou curiosa! Parabéns ♥
    Confira tambem meu post novo, acho que vai gostar.
    Um beijo! ❤
    (https://www.bloggentefazendolivro.wordpress.com)

    Curtido por 1 pessoa

  2. Estou na metade do livro, e sinto muito tudo isso com relação a tradução. Sei que é um livro bom, mas não está sendo bom ler ele rs. Um tanto chato, lindo texto

    Curtir

Trackbacks

  1. Desafio: etapa 2 – Desafio Livros pelo Mundo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: