Coreia do Norte: Para Poder Viver

Resenha nº 28: Para Poder Viver: A jornada de uma garota norte-coreana para a liberdade – Yeonmi Park

Eu pensei por um bom tempo sobre como escrever a resenha da biografia de Yeonmi Park, uma ativista norte-coreana que fugiu do país em 2007. O livro lembra um pouco a biografia da Khady, outra ativista de direitos humanos, que teve uma grande dose de sofrimento e coragem para superar as dificuldades.

O livro é dividido em três partes, que contam a vida de Yeonmi na Coreia do Norte, na China e então na Coreia do Sul. A publicação aconteceu após os relatos da jovem receberem destaque internacional e foi inspirada pela frase de Joan Didier: “Nós contamos histórias para poder viver”.

Parafraseando Yeonmi, essa é a história das escolhas que ela fez para poder viver (por isso o título). Através delas, aprendemos sobre a cultura, história e modo de vida na Coreia do Norte. Descobrimos o surgimento de um capitalismo rudimentar na década de 90 após uma onda de fome, as relações que levam ao casamento e a exclusividade em Pyongyang.

Pensei em como contar essa história aqui, mas então percebi que o texto dela conta com uma série de passagens marcantes. Por isso, dessa vez decidi resumir o livro com alguns trechos que são mais explicativos do que eu jamais poderia ser.

Parte 1: Coreia do Norte

“As Coreias do Norte e do Sul têm o mesmo fundamento étnico e falamos a mesma língua – com a ressalva de que no Norte não há palavras para coisas como ‘shopping center’, ‘liberdade’ ou mesmo ‘amor’, pelo menos no sentido como o resto do mundo as conhece. O único verdadeiro ‘amor’ que podemos expressar é o culto aos Kim, uma dinastia de ditadores que tem governado a Coreia do Norte ao longo de três gerações.”

“Meu país anterior nem mesmo se chama Coreia do Norte – se diz Chosun, a verdadeira Coreia, um perfeito paraíso socialista onde 25 milhões de pessoas vivem somente para servir ao Líder Supremo, Kim Jong-Un. Muitos dos que escapamos chamamos a nós mesmos de ‘desertores’ porque, ao nos recusarmos a aceitar nossa sina e a morrer pelo Líder, estamos desertando nosso dever. O regime nos chama de traidores. Se eu tentasse voltar, seria executada.”

“O regime é conhecido como Reino Eremita, porque tenta se fazer incognoscível. Somente os que de lá escapam podem descrever o que de fato se passa por trás das fronteiras fechadas. Até pouco tempo, porém, nossas histórias raramente eram ouvidas. Cheguei à Coreia do Sul na primavera de 2009, com quinze anos, sem dinheiro algum e com escolaridade equivalente a dois anos de escola primária.”

“Quando eu era criança, costumava ficar na escuridão contemplando as luzes de Changbai do outro lado do rio, perguntando-me o que estaria acontecendo além dos limites de minha cidade. Era excitante ver os fogos de artifício coloridos explodindo no preto aveludado do céu durante os festivais do Ano-Novo chinês.”

“Quando eu era pequena, não ouvia os ruídos mecânicos de fundo, como agora na Coreia do Sul e nos Estados Unidos. Não havia caminhões revirando o lixo, buzinas soando ou telefones tocando por toda parte. Tudo o que eu podia ouvir eram sons de pessoas: mulheres lavando a louça, mães chamando seus filhos, o tilintar de colheres e hashis na tigela de arroz quando as famílias sentavam-se para comer.”

“Em nossa casa em Hyesan, os canos d’água quase sempre estavam vazios, e assim era comum minha mãe descer com nossas roupas até o rio para lavá-las ali. Quando as trazia de volta, espalhava-as sobre o chão quente para secar.”

“O melhor dia de todo mês era o Dia do Macarrão, quando minha mãe comprava a massa do macarrão fresca e úmida feita numa máquina na cidade. Queríamos que a massa durasse bastante tempo, e para isso a estendíamos no chão quente da cozinha para secar.”

“Na maioria dos países, a mãe estimula os filhos a perguntar sobre tudo, mas não na Coreia do Norte. Assim que tive idade suficiente para entender, minha mãe me advertiu que eu devia ser cuidadosa com o que eu dizia. ‘Lembre-se Yeonmi-ya’, falava suavemente, ‘mesmo quando você pensar que está sozinha, os pássaros e os ratos podem te ouvir sussurrar.’”

“Todo mundo na Coreia do Norte tinha piolhos, e não havia meio de se livrar deles.”

“A fome tornara-se insuportável; eu queria arriscar minha vida pela promessa de uma tigela de arroz.”

Parte 2: China

“O governo chinês não queria uma inundação de imigrantes, nem aborrecer a liderança em Pyongyang. A Coreia do Norte não é somente uma parceira comercial, mas também uma potência nuclear empoleirada bem em sua fronteira, e também um tampão entre a China e a presença norte-americana na Coreia do Sul. Beijing se recusa a dar status de refugiado aos fugitivos da Coreia do Norte; em vez disso, os rotula de ‘migrantes econômicos’ ilegais e os envia para casa. Antes de fugir, não sabíamos nada disso, é claro. Pensávamos que seríamos bem-vindas.”

Aqui cabe uma observação, uma das possibilidades de fuga da Coreia do Norte para a China é através de traficantes de pessoas. Sem saber, Yeonmi e sua mãe foram parar nas mãos de homens que queriam estupra-las e vende-las como esposas (ilegais) para chineses.

Yeonmi acabou se tornando companheira de um desses traficantes e viveu quase dois anos no submundo da China, até conseguir que um grupo de missionários fizesse a travessia de refugiados pelo Deserto de Gobi na Mongólia. Na Mongólia, a embaixada sul-coreana cuidou deles.

“Os atravessadores geralmente não obrigam uma mulher a aceitar parceiros, porque sabem que elas vão tentar fugir depois, o que seria ruim para o negócio.”

“Sei que é possível perder parte de sua humanidade para sobreviver.”

Parte 3: Coreia do Sul

“Assim que nos instalamos em nossa nova vida, descobri quão penosa a liberdade pode ser.”

“Eu nunca soube que a liberdade poderia ser uma coisa tão cruel e difícil. Até então, eu tinha pensado que ser livre significava poder usar jeans e assistir aos filmes que quisesse sem ficar preocupada com a possibilidade de ser presa. Agora me dava conta de que tinha de pensar o tempo todo – e isso era exaustivo. Houve momentos em que me perguntava se, se não fosse a fome constante, eu não estaria melhor na Coreia do Norte, onde todos os meus pensamentos e todas as minhas escolhas já tinham sido cuidados não por mim, mas para mim.”

“Vi estudos recentes que indicam que quase 75% de desertores norte-coreanos recém-chegados à Coreia do Sul têm alguma forma de distúrbio emocional ou mental.”

“Mas depois da fome da década de 1990, uma onda de refugiados começou a jorrar na Coreia do Sul, prejudicando o sistema de realocação. Na verdade, o número de desertores em 2009 foi o maior já registrado, com 2914 novas chegadas.”

Fiquei surpresa e feliz em saber que a Coreia do Sul destina recursos e tem estrutura para receber os norte-coreanos, já tendo em vista uma reunificação no futuro. Eis um belo exemplo de planejamento.

Em 2008, aconteceram as olimpíadas na China e as autoridades chinesas se lançaram à caça de imigrantes ilegais, deportando-os, após denúncias internacionais de que o país não tratava dos refugiados da maneira correta. Essa cobrança só piorou a situação dos imigrantes. O grupo de Yeonmi foi um dos últimos capazes de chegar à Coreia do Sul pelo deserto de Gobi.

Compartilhei aqui os trechos que mais me marcaram, mas ainda tem muita história no livro que eu não mostrei aqui. Há uma riqueza de detalhes muito maior também. O livro é curto e a escrita fluida e emocionante, recomendo demais a leitura! Você pode encontrá-lo aqui.

Você já conhecia a história de norte-coreanos? Deixe um comentário, quero saber se eu sou a única que praticamente desconhecia a realidade deles. Realmente aprendi muito!


Ficha Técnica:

Autor: Yeonmi Park

Editora: Companhia das Letras

Edição: 1

Ano: 2016

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