Ruanda: Sobrevivi para contar

Resenha nº 33: Sobrevivi para contar: O poder da fé me salvou de um massacre -Immaculée Ilibagiza

A resenha de hoje é sobre o best-seller de Immaculée Ilibagiza, em que ela compartilha conosco parte de sua história de vida. Esse com certeza é um dos livros mais tristes que eu já li, rivalizando com a história de Kadhy, ativista senegalesa em prol da extinção das práticas de mutilação genital feminina.

O livro é curto e emocionante. Immaculée relembra de sua vida desde a infância, sua família unida, a casa humilde, mas sem que nada faltasse a eles. Seus pais (Leonard e Rose) eram professores e apoiaram os filhos – três homens (Damascene, Vianney e Aimable) e Immaculée – a progredirem nos estudos, pois acreditavam que a educação era a única arma contra a pobreza e a fome.

Na escola, Immaculée percebia certa distinção entre os alunos, ela sofria discriminação, mas ninguém explicava o porquê. Seus pais garantiam que ela merecia tratamento igualitário. Desde então, ela passou a entender que as pessoas em sua comunidade pertenciam a tribos diferentes, Hutus e Tutsis. Entretanto, ninguém imaginava a devastação que isso causaria.

Aos 22 anos, em 1994, Immaculée estudava engenharia na Universidade Nacional de Ruanda. Ela voltou para visitar a família em um feriado e então o genocídio eclodiu.

Como seus pais eram queridos na comunidade, Immaculée se refugiou na casa de um pastor Hutu com mais sete mulheres Tutsis. Elas tiveram de ser escondidas em um banheiro minúsculo, amontoadas, amedrontadas, em silêncio absoluto, comendo restos da casa (quando possível).

Immaculée conta seus sentimentos, as dificuldades para manter sua sanidade e das colegas. Não havia condição nenhuma de higiene, a ventilação era apenas uma pequena janela basculante, à altura do teto, coberta por um pedaço de pano vermelho. Por vezes, o pastor ia até elas para dar notícias sobre o que acontecia lá fora, deixando-as ainda mais aterrorizadas.

A porta do banheiro foi escondida por um armário, Immaculée rezava várias horas por dia.

“Por favor, Deus, deixe cegos os assassinos quando chegarem ao quarto do pastor — não permita que descubram a porta do banheiro, não permita que eles nos vejam. Você salvou Daniel da cova dos leões, impediu que eles o fizessem em pedaços… não permita que esses homens nos façam em pedaços também. Deus, proteja-nos como protegeu Daniel.”

Milícias Hutus vieram à casa do pastor procurando pelas mulheres, revistaram a casa várias vezes. Pela janela, Immaculée ouviu-os descreverem com risadas a execução de seu irmão, cujo crânio foi partido ao meio para verem como era a cabeça de alguém com título de mestre.

O conflito durou 100 dias, até a comunidade internacional intervir no caso. A essa altura, cerca de 800.000 pessoas foram assassinadas, o que representava 75% da população Tutsi. Em 1994, a população de Ruanda era cerca de 6 milhões (em 2019 era 12,3 milhões). O genocídio estava acalmando, já que era difícil encontrar Tutsis, mas ainda era muito perigoso sair às ruas.

No entanto, as mulheres não tiveram escolha. O esconderijo estava prestes a ser descoberto, o pastor teve de expulsá-las de casa para preservar sua família. Elas foram procurar as tropas francesas da ONU para conseguir refúgio e proteção. Por sorte, esse encontro aconteceu rapidamente e elas foram resgatadas.

Immaculée e as outras estavam destroçadas. Havia corpos por todo o caminho, a descrição é inimaginável. Todos os parentes e amigos de Immaculée e a família estavam mortos, o único parente vivo é o irmão Aimable, que estava fazendo intercâmbio na época e foi impedido de retornar durante o massacre.

Fluente em francês, Immaculée foi útil nos esforços da ONU na região. Quatro anos mais tarde, quando Hutus refugiados em países próximos retornaram à Ruanda e começaram a matar os sobreviventes do genocídio, para que as testemunhas não depusessem contra eles nos tribunais, Immaculée migrou para os Estados Unidos e continuou a trabalhar na organização.

Ela encontrou força na religião para perdoar os assassinos e continuar a desfrutar da vida. As feridas demoraram a cicatrizar, hoje ela se dedica à Fundação Ilibagiza, para ajudar outros sobreviventes a se recuperarem dos efeitos a longo prazo do genocídio e da guerra. Immaculée reside em Long Island, com o marido Bryan Black e os filhos, Nikeisha e Bryan Jr.

Aqui, eu contei apenas os eventos principais da história de Immaculée. Estou escrevendo emocionada. Esse é um livro que te força a fazer um exercício de humildade e gratidão, eu nunca imaginaria poder passar por algo assim. Immaculée se mostrou uma mulher forte, ela tem toda a minha admiração e respeito, desejo a ela toda a felicidade do mundo.

Deixo aqui uma entrevista ótima que Immaculée concedeu ao Estadão em 2008, vale a pena ler.

Para finalizar essa resenha em um clima mais leve, que tal deixar uma recomendação de um livro para aquecer o coração? Eu indico Desculpa se te chamo de amor, e você? Deixe nos comentários.


Ficha Técnica:

Autor: Immaculée Ilibagiza

Editora: Fontanar

Ano: 2008

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