Alemanha: Nada de Novo no Front

Resenha nº 40: Nada de Novo no Front – Erich Maria Remarque 

Oi, gente! Tudo bem com vocês? A resenha de hoje é sobre o livro Nada de Novo no Front, escrito pelo alemão Erich Maria Remarque. Esse livro foi uma indicação de um amigo alemão que adora relatos históricos.

Não me surpreende que ele goste tanto de Nada de Novo no Front. Esse livro deu origem a inúmeras adaptações cinematográficas, mas não encontrei nenhuma disponível em português. Se alguém conhece, deixa nos comentários para eu ver!

Erich Maria Remarque, originalmente chamado Erich Paul Remark, foi convocado para o exército alemão ao completar 18 anos, em 1916, e participou da Primeira Guerra Mundial.

Remarque foi ferido várias vezes nas trincheiras, uma vez gravemente. Nos anos seguintes ao conflito, o autor teve vários trabalhos e viveu atormentado por suas experiências de guerra.

No decorrer dos 10 anos seguintes, Remarque anotou em cadernos suas memórias e deu origem a esse romance sobre o absurdo da guerra.

O livro foi fonte de muita polêmica, críticas e discussões, já que Remarque deu voz aos soldados, mostrando de modo pragmático as angústias e violências da guerra, em oposição à sociedade alemã da época que ainda acreditava se tratar de uma fatalidade histórica e idealizava os soldados com romantismo heróico.

Tivemos que reconhecer que a nossa geração era mais honesta do que a deles; só nos venciam no palavrório e na habilidade. O primeiro bombardeio nos mostrou nosso erro, e debaixo dele ruiu toda a concepção de mundo que nos tinham ensinado. 

Enquanto eles continuavam e escrever e a falar, víamos os hospitais e os moribundos; enquanto proclamavam que servir o Estado era o mais importante, já sabíamos que o pavor de morrer é mais forte. Nem por isso nos amotinamos, nem nos tornamos desertores, nem mesmo covardes (todas essas expressões lhes vinham com tanta facilidade!); amávamos nossa pátria tanto quanto eles, e avançávamos corajosamente em cada ataque; mas agora já sabíamos distinguir, aprendemos repentinamente a ver; e do mundo que haviam arquitetado víamos que nada sobrevivera. De súbito, ficamos terrivelmente sós – e, sós, tínhamos de nos livrar de toda esta embrulhada. 

Os verdadeiros soldados não era os guerreiros orgulhosos dos filmes, mas homens maltrapilhos, famintos e assustados. Dividiam suas comidas com os ratos e dormiam com os piolhos. Nenhuma obra lançada até então pareceu tão autêntica e reveladora da verdade para os veteranos.

Quando fomos ao comando regional não passávamos de uma turma de vinte jovens, alguns dos quais tinham-se deixado orgulhosamente barbear pela primeira vez antes de pisar o pátio do quartel.  […] Recebemos dez semanas de instrução militar; nesse período sofremos uma transformação mais radical do que em dez anos de escola. Aprendemos que um botão bem polido é mais importante do que quatro livros de Schopenhauer. No princípio surpreendidos, depois amargurados, e finalmente indiferentes, reconhecemos que o espírito não era o essencial, mas sim a escova de limpeza; não o pensamento, mas o “sistema”; não a liberdade, mas o exercício. Foi com entusiasmo e boa vontade que nos tornamos soldados; mas fizeram tudo para que perdêssemos a ambos. […] Com nossos olhos jovens e alertas vimos que o conceito clássico de “pátria” dos nossos mestres desenvolvera-se, até então, com uma renúncia completa da personalidade, de uma forma que nunca ninguém ousaria exigir do mais humilde servente. 

Nada de Novo no Front narra a história de um grupo de amigos de uma cidade pequena na Alemanha, contada do ponto de vista de Paul Bäumer. O primeiro a ser perdido, logo no primeiro capítulo, é Kemmerich. Nessa batalha, dos 150 soldados enviados apenas 80 retornaram.

Kemmerich baixa a cabeça: 

– Vou indo… mas sinto dores horríveis no pé. 

Olhamos para o cobertor. Sua perna está estendida numa cesta de arame; o cobertor se arqueia, grosso, por cima. Dou um leve pontapé na canela de Müller, pois ele é capaz de contar a Kemmerich o que os enfermeiros já nos disseram lá fora: Kemmerich não tem mais aquele pé: a perna foi amputada. 

Sua aparência é pavorosa; a pele está amarela e lívida; no rosto já se desenham aquelas linhas singulares que tão bem conhecemos, porque já as vimos centenas de vezes. Para dizer a verdade, não são linhas, são sinais. Sob a pele, a vida não palpita mais, vai sendo expulsa do corpo; a morte avança de dentro para fora e já domina os olhos. Lá está nosso companheiro Kemmerich, que até há pouco ainda assava carne de cavalo e se agachava junto conosco nos buracos abertos pelas granadas; ainda é ele, porém já não é mais ele; suas feições ficaram imprecisas, indistintas, como duas fotografias sobrepostas na mesma chapa. Até sua voz soa como se viesse do túmulo. 

Remarque deixa claro como a guerra destruiu o ser humano dentro do soldado.

De repente tudo me parece inútil e desesperado. 

Kropp também está pensativo. 

– De qualquer maneira, vai ser difícil para nós. Será que lá em casa eles não se preocupam, às vezes, com isso? Dois anos de tiros e granadas… não é algo que se pode despir, como uma roupa. 

Concordamos que acontece o mesmo a todos; não é só a nós, que estamos aqui, mas a todos os outros, todos os da nossa época; mais para uns, menos para outros, pouco importa. É o destino comum da nossa geração. 

Albert exprime muito bem o que pensamos: 

– A guerra nos arruinou a todos. 

Ele tem razão. Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos e estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra. 

Muitas vezes fiquei com o coração partido enquanto me colocava no lugar desses jovens (não muito mais jovens que eu e meu irmão). Se o passado se repetisse novamente, hoje seria a nossa vez.

Mesmo quando recebe a licença, Bäumer não consegue sentir que pertence à sua casa. O mundo comum que vivemos já não faz sentido. Imaginar um mundo sem guerra já não é possível para ele e ninguém entende o que se passa realmente.

Imaginava a licença de modo inteiramente diverso. Há um ano, de fato, teria sido mesmo diferente. Com certeza fui eu quem mudou esse intervalo. Entre aquela época e hoje há um abismo. Naquela ocasião ainda não conhecia a guerra; estávamos em áreas mais calmas. Hoje reparo que, sem perceber, fiquei desiludido. Não consigo mais me orientar, é um mundo desconhecido. Alguns perguntam, outros não perguntam, e se vê que eles se orgulham disso; frequentemente, chegam até a dizer, com um ar de compreensão e superioridade, que não se pode falar sobre essas coisas. 

Prefiro ficar sozinho; assim ninguém me irrita, porque todos voltam sempre ao mesmo tema: como tudo vai mal, como tudo vai bem; um acha isto, o outro, aquilo… acabam sempre falando do que lhes interessa pessoalmente. Antigamente devo ter sido assim também, mas hoje não me sinto mais ligado a isso. 

Falam demais. Têm preocupações, objetivos e desejos que eu não entendo. Às vezes me sento com um deles no pequeno jardim do café e tento lhe explicar que o importante, afinal, é ficar sentado assim, tranquilamente, como agora. Compreendem, é claro, e o admitem; chegam até a concordar, mas só com palavras, isto é… sentem-no, mas só pela metade; o resto de seu ser está ocupado com outros assuntos; estão de tal forma divididos dentro de si próprios que nenhum deles sente isso com toda a sua alma; até mesmo eu não consigo expressar claramente o que penso. 

Quando os vejo assim, nos seus quartos, nos seus escritórios, entregues aos seus afazeres, me sinto irresistivelmente atraído; queria ficar aqui também e esquecer a guerra; mas, ao mesmo tempo, isso também me repugna, tudo é tão mesquinho, como pode encher uma vida? É preciso acabar com isso! 

Esse é um livro pungente sobre a primeira guerra e foi tão influente que o livro foi banido durante a ascensão nazista, inclusive queimado em praça pública. Remarque teve que se exilar e teve sua cidadania alemã caçada.

Muitas vezes os alemães são mostrados como vilões da história, mas no fundo somos todos iguais e em tempos menos democráticos nossas vidas ficam à mercê das decisões dos governantes.

[…] Estado não é pátria… há, na verdade, uma diferença entre eles.

– No entanto, estão ligados – observa Kropp. – Não pode haver pátria sem Estado.

– É verdade, mas pense um pouco: somos quase todos gente do povo. E, na França, a maioria das pessoas também é gente do povo: operários, trabalhadores e pequenos empregados. Por que então deveria um serralheiro ou um sapateiro francês nos agredir? Não, são só os governos. Antes de vir para a guerra nunca tinha visto um francês; e deve ter ocorrido o mesmo com a maioria dos franceses em relação a nós. Pediram a sua opinião tanto quanto a nossa.

– Mas então para que server a guerra? – indaga Tjaden.

Kat dá de ombros.

– Deve haver gente que tira proveito dela.

Essa obra é um lembrete contra as narrativas de um passado fabricado, que não condiz com a realidade de quem o presenciou. Não precisamos repetir os mesmos erros do passado. Não precisamos de mais caos, crateras de granadas inundadas de água e 10 milhões de mortos.

Em resumo, esse livro deveria ser leitura obrigatória .


Ficha Técnica:

Autor: Erich Maria Remarque

Editora: Altaya / Record

Ano: publicado entre 1995 e 1997

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