Cuba: O Reino deste Mundo

Resenha nº 43: O Reino deste Mundo – Alejo Carpentier

Olá! A resenha de hoje é do livro O Reino deste Mundo, do autor cubano Alejo Carpentier. Apesar da nacionalidade cubana, a história é sobre os movimentos de independência dos negros escravizados no Haiti. Publicado em 1949, o livro é um dos precursores do realismo mágico, gênero de grandes obras latinas como Cem Anos de Solidão e A Casa dos Espíritos.

Este é um livro curto, tem apenas 122 páginas, e é dividido em quatro partes. Na primeira delas, somos apresentados a Ti Noel, homem escravizado na fazenda de Lenormand de Mezy, ambos personagens fictícios.

Ti Noel e Mackandal são amigos, os dois discutem a opressão e os suplícios que viviam. Os franceses eram cruéis com os escravos, flagelando-os sem misericórdia. Mackandal é também uma figura histórica, faleceu em 1758, mas não consegui confirmar se o autor apenas adaptou a figura dele em sua história ou se a narrou de acordo com os fatos.

Mackandal teve um dos braços triturados por uma máquina de cortar cana, evento que ocorreu com desconfortável indiferença de todos. Agora maneta, Mackandal não era útil para boa parte das atividades da fazenda, então é designado para acompanhar o rebanho pastando. Em seu tempo livre, o escravo descobre uma variedade de fungos e plantas venenosas.

Mackandal decide então fugir da fazenda e ir para o interior do país, para aprofundar seus conhecimentos e se dedicar ao Vodu, a religião que mantinha os negros haitianos unidos e motivados. Após um período ausente, Mackandal e Ti Noel sabotam a fazenda de Mezy, envenenado os animais.

De repente, não é apenas a propriedade de Lenormand de Mezy, mas a casa de todas as famílias brancas da região são atingidas pela praga e os alvos não são mais os animais, mas sim os escravagistas e seus familiares.

Aparentemente sem explicação, essa onda de envenenamentos deixa a elite furiosa e amedrontada. Logo descobrem a influência de Mackandal e a conspiração dos escravos contra os brancos.

A caça a Mackandal é intensa, mas os seus seguidores desacreditavam no sucesso dos brancos, já que o sacerdote Vodu se transformava em animais para se infiltrar nos locais sem ser notado. Mesmo quando foi capturado e queimado vivo, os seguidores acreditavam que ele retornaria e o espírito de vingança e libertação continuou vivo.

Na segunda parte, vinte anos depois, acontece uma nova insurreição de escravos liderada pelo jamaicano Boukman (também sacerdote do Vodu e figura histórica). Esse evento foi especialmente sagrento e cruel, houve muitos assassinatos de famílias brancas e a repressão foi ainda maior, vitimando muitos negros.

Os brancos sobreviventes, como Lenormand de Mezy, emigraram para Cuba e viveram sem objetivos até acabar a sua fortuna. Em Cuba, o tratamento aos escravos era mais brando, os brancos eram menos pomposos e remuneravam os escravos no natal, de modo que Ti Noel, vendido para um senhor local, pôde comprar sua liberdade e se tornar um homem livre.

Ti Noel decide então retornar ao Haiti, onde descobre uma nova sociedade liderada por negros e mulatos, com uniformes opulentos e costumes europeus adaptados. Da fazenda de Lenormand de Mezy não restou nada.

Após um momento de orgulho e alegria, ao chegar o vilarejo de Milot, Ti Noel viu a construção da Citadelle Laferrière, um grandioso forte construído para proteger os haitianos liderados pelo rei autoproclamado e ex-escravo Henri Christophe (figura histórica).

Em meio ao seu êxtase, Ti Noel leva uma pancada e é imediatamente obrigado a trabalhar da construção, mesmo com a idade avançada. As feridas da escravatura no Haiti eram muito profundas, mesmo em uma sociedade nova liderada por negros, eles se sentiam no poder de escravizar e flagelar os seus semelhantes.

O rei Henri Christophe era um tirano impopular e insensível. Muitos dos trabalhadores pereceram na construção de seus palácios e fortalezas, até hoje não se sabe determinar quantos. Os negros no poder naquela época eram ainda mais opressores e irresponsáveis que os antecessores brancos.

O rei Henri Christophe fundiu o Vodu e o Cristianismo, de forma até caricata. Era sua tentativa de aproximar negros e brancos, para mostrar que uma sociedade liderada por negros poderia ser tão grandiosa quanto uma europeia. De fato, os relatos de visitantes reverenciam a grandeza das construções que hoje são pontos turísticos haitianos e patrimônio da humanidade.

Como todo tirano cruel e violento, sua deposição veio com seu sangue e a fúria dos seus semelhantes. Sua esposa e filhas conseguem fugir para a Europa.

Após o saque das fortalezas, Ti Noel se estabelece de vez na antiga fazenda de Lenormand de Mezy, que agora não passa de ruína. Ele vai enlouquecendo aos poucos e observa as mudanças na paisagem ao seu redor.

Agora, as terras são dominadas pelos mulatos que governam a República do Haiti. Os novos governantes instituíram o trabalho obrigatório, mais uma vez, a violência e a opressão banham as terras haitianas.

Ti Noel está em todos os eventos, mas apenas como coadjuvante. Ele é a representação da memória do povo haitiano, de todas as desgraças que se seguiram. Por mais que tente encontrar seu lugar, isso não parece possível. É quando Ti Noel decide se rebelar e decidir o rumo de sua vida. Nesse momento, o ancião é levado deste mundo.

O Reino deste Mundo é mais uma história que retrata as feridas da dominação europeia no continente, assim como Huasipungo, Prisión Verde e Omeros. Essas feridas são vistas até hoje.

É uma pena que a narrativa seja focada em fatos descritos brevemente, apesar de brutais, a linguagem complexa e a falta de profundidade dos personagens dificulta a empatia do leitor. Por outro lado, é verdade que não há lado inocente nessa história.

Para quem gosta de literatura caribenha, deixo aqui minha recomendação da obra haitiana Adriana em Todos os meus Sonhos, também uma linda história de realismo mágico.

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Ficha Técnica:

Autor: Alejo Carpentier

Editora: Record/Altaya

Ano: 1997

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